Crônica de uma tatuagem

11 de jun de 2010

28 de fevereiro de ....Ela volta da praia, o sol, o sol, e ferroadas no pé dormente. Muita claridade, tudo muito claro. Pensa nele como um pássaro. Um que pousou e quer voar. Pensa nele como em um cão dado a uma pessoa sem amor. Pensa nele como um cão que pede amor a alguém. Ela sente ainda uma outra língua dentro de sua boca. Pensa nele o tempo todo como um mistério. Não sabe. Sabe. Pensa saber. Não sabe mais. A língua cria uma espécie de sortilégio lírico-abstrato. Sente-se presa num oco sem som. Talvez seja uma coruja esgotada. Uma coruja surda. Ele um pássaro, um cão. Só se encontram neste espaço furtivo. São dois. Mas poderiam ser mais. São dois? Mas poderiam não ser os únicos. Só os dois? Não, são mais... Ela não quer ficar triste. Ela não sua. Não há erros...Fica com as conchinhas.


2 de março de ...Ouve alguns estalidos no telefone. Tudo estala. Tudo estrela com várias pontas. Não há muito a ser dito. São palavras depositadas no fundo de uma terrina vazia. Nada mais de intuições e premonições, o sol entrou pela janela como um concerto de maritacas. Ela deseja que ele se afogue neste mar. Pensa que poderá esperar que a tempestade passe para sair do oco da árvore. Faz um voto, segredo despejado num oco...
Ok., não pára agora.

não se arrepie como um
gato ruivo.
Não destrua nada. Que triste!



3 de março de ...O peixe solta fiapos de si mesmo pela barriga. Está muito doente...O sol, o sol de um verão que já vai acabando. Os pelos da barba cada vez mais ruivos, os pelos do púbis cada vez mais ruivos. Os fios brancos que pintavam o corpo. Entre contabilidades, mostram um para ou outro as mãos vazias, o tanto que perderam. O peixe nada colado à parede lisa do aquário, parece cansado. Ela bate no vidro implorando que ele morra logo. Por trás, um cão raivoso espuma, late, ameaça morder. Ele não soube protegê-la do ataque das gaivotas. Ela emagreceu um kilo no dia do adeus. Um curto-circuito ameaça criar um apagão na cidade. Desligam todos os aparelhos das tomadas, esperam em vão o silêncio dos inocentes. Osso atravessado na garganta. A pata presa sob a gorda saudade. Eu te beijo e esqueço de retirar meus lábios... Cenário marinho. Um ouriço do mar. E tantas conchinhas quebradas com seus interiores madrepérolas. Um cavalo marinho, desterrado mergulha em outra praia. Um dia talvez retorne. A areia queima os pés dos meninos que brincam com uma bola vermelha. Um coração detonado. Fechar uma comporta. Abrir uma outra porta. Sair.


04 de março de ... Ela queima o pé na taturana. Nenhum documento recente. Ele, preso atrás das grades, come tamarindos, frutos ácidos. Primeiro a tempestade, agora garoa. Ontem, um calor de dar pena, dar dó, um dó, um nó. Ele transpira. Ela está totalmente entregue ao labor, ao suor daquela nuca: Tentam um acordo, as pontas do garfo da mágoa espetam por baixo da língua, muito ressabiados, vão saindo de si em direção a outros corpos, outras roupas, outros modos de amar. Saem para passear na cidade.


05 de março de....Sai o sol e se esconde.


06 de março de .... Quer apenas a intensidade. E o alívio. Não, não quer. Quer a língua dele. Ouve gritos na televisão...Os caracóis saberiam as intensidades dos nomes quando sussurrados, no pulmão, o ar borbulhar dentro das cavidades? Saberiam?


07 de março de .....Encara de frente uma águia cinzenta, enigma de bico aberto. As vozes estão passando por um fio e chegam de assalto, invadem seu ouvido como ameaças. Deposita o segredo no ouvido de Deus. Ela, agora, descansa a perna sobre o museu das lembranças. Beija longamente um pequeno olho de peixe. E recolhe no peito as conchinhas como um colar. Está se enfeitando.


08 de março de .....São cacos hoje. Juntam os pedaços. Os dois. Uma contabilidade arrasada. Não suporta mais ter perdido o nome. Não sabe mais quem é. Pergunta ao seu avô. Quem é você? Como chegou até aqui. Pousou no meu braço como um bichinho. Um inseto? Pensa nele o tempo todo. Gostaria de tomar um banho e esquecer. Tem medo de adoecer. Tem medo de sofrer demais. Talvez esteja sofrendo demais. Talvez esteja doente.

Nomes da coisa. A coisa, as coisas têm vários nomes ao anoitecer. Ver pôr-do-sol por aqui. A cidade. Os degredados. Saudades. Tristeza.
Preocupação. Já não tem mais apetite para conversas. Teme que destrua coisas? Não tem como destruir.. Está num
nasce-morre dos diabos. Não morreu no mar, ontem.
mudou-se para o mar.


09 de março de...A cidade se abre cedo. Muitas vidas se espalham pelas ruas vazias. Estava tão sonolenta...tão entregue. Deixava-se escorregar, deslizava por aquele mundo de imagens...Quer reter aquele momento em que suas almas conversaram em segredo, combinaram coisas sem que eles pudessem saber...


10 de março......Gatos escaldados sobem no muro. Miam.


11 de março de .....Nada...


12 de março de..... Vê a beleza. Não pode escrever agora. Os olhos despedaçados caíram no chão. Tudo se quebra ...Deliberadamente. Por necessidade. O bairro e suas meninas, seus meninos. Os corpos, os corpos os corpos quase nus, mendigos deitados nas calçadas, se coçam, se masturbam, sonham nas calçadas, amam ali mesmo. Um bairro sem disfarces? O dançarino que encobre seu rosto com um leque e expõe o sexo para a platéia. Abelha vermelha... No antebraço, uma tatuagem aberta. Flor pouco tanto vermelha. O bairro suas teias de aranha, esgotos. Janelas de vidro caem na cabeça das mulheres desavisadas. Mesas de vidro se espatifam. Se fosse só ficção ...: fio tênue onde se anda. Ao contrário...Sem medida. Os átomos. Usa óculos, mas não enxerga. Não vê. Não lê. Os olhos estão doentes.


13 e 14 de março de.....Está entre lá e cá. Entre um dia e outro. Entre um endereço e outro. Nem sabe mais quem é. Os dias curtos, as noites sobressaltadas. Quer beijar os arranhões do braço dele, lamber as feridas. Está tonta, talvez a tinta das tatuagens esteja com curare, ele se acha um tonto. Ele dorme, ela sempre acordada. Os olhos dele caíram no chão, despedaçados, goiabas esmagadas por patas raivosas. Eles ressurgirão de algum outro lugar, de um outro novo endereço. Os degredados líricos.


16 de março de.....Abre as coxas e puxa o fio da vida. Na ponta uma pérola perfeita.


17 de março de ......Que contrariedade! Sabe que vai ser mordida e seus ossos vão ser triturados sob a mandíbula de aço. O amor não gruda nos dentes, não gruda na língua. O olho dela não suporta. Desvia o rosto para não vê-lo na entrega amorosa. Os mosquitos, impedidos de pousarem na parede, morrem de exaustão... Inscreve uma frase no corpo e vê o próprio sangue. Micro-escritura corporal. Tatuagem. Amanhã ou depois, seu corpo será decifrado pelas formigas. Ele tem os olhos estilhaçados e não pode mais vê-la, ela vacila se deve manter a mão dele em concha sobre o ombro machucado. Pensa usar óculos diferentes para cada frase. Pensa estar doente dos olhos.O cavalo do tempo desembestou. O alarme diário toca com fúria.


18 de março de ....O ombro tatuado arde. Não pode fugir tanto. Vai à esquina e volta. Talvez invente um amor seguido de morte suave.


Dias 20, 21, 22 de março de .....O desejo tem cinco pontas que espetam. O arco da tatuagem cria mistério em torno dos nomes. As metáforas começaram a abandoná-la entre risadinhas maliciosas, ficará condenada ao literal. Para cada coisa terá de arrumar um nome novo. Rebatizar todos os móveis do apartamento. Ficariam inéditos, invisíveis, trocando os nomes a cada hora?


23 de março de .....Leu, leu tudo de enfiada. Muitas formas de trincamento nas imagens. Chorou mais exasperada que triste. De novo o nome apareceu com um brilho inegável ...Seus olhos também trincaram. Cada qual com seu dono...


24 de março de ......Cicatriza as feridas do antebraço com beijos untados com bálsamo, sentada ao lado dele na cama, enquanto ele afunda na tristeza sonolenta e vai abandonando-a aos poucos. Talvez se divirta fazendo poemas para mulheres fatais.


25 de março de .....O quarto está escuro. Todas as lâmpadas vão se queimando na casa. Depois de tudo, ainda ficarão os dois, tateando as coisas imóveis? O dedo destroncado não aponta em nenhuma direção. Os mergulhos na tela. Os afogamentos, um corpo se embrulha nas ondas, pensa ainda ao afogar-se no sal das palavras. Segura as coisas sem força nenhuma. Frestas de luz vermelha na escuridão. O bairro ainda às escuras e a bolsa sempre pendurada no trinco da porta.

Como se termina uma estória?
 
Kiki Peixoto © 2008. Templates Novo Blogger